Devenir Devenindo-se

Lei ou princípio, o devenir vive. Mora na existência. Em transformação, em mudança constante sob o olhar curioso de estados de consciência em expansão. Está em tudo o que é e o que ainda não é. No visível e no invisível, o devenir acontece, aparece, desaparece, constrói, destrói, olha, deixa de olhar.

Mas, o que é o devenir? É uma força?

Antes, o devenir era uma ameaça, o tal do eterno retorno à espreita de experiências humanas. Às vezes era castigo, vingança, juiz implacável diante das fragilidades humanas. Outras vezes, uma bênção, recompensa para virtudes. 

A advertência “Cuidado com o devenir! Olha o devenir!” dizia muito sobre os pensamentos, os sentimentos, as relações humanas, o estado de consciência de uma época. Que prazer ter o poder de “dar” um devenir em pessoas, subjugando-as, amedrontando-as sob a força de uma ameaça. Que prazer explicar a realidade como consequência do devenir. O devenir era uma ilusão, um véu tecido pelo medo da  punição ou pela alegria de recompensas.

Isso era antes. Mas e agora?  Como é o devenir?

Bom… no século XVIII, o químico Lavoisier disse que na natureza “nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” E o devenir estremeceu, diante da lei de conservação. Era uma mudança de paradigma! O devenir ganhou novo significado. Tornou-se uma força, que impulsiona mudança, como um movimento contínuo que, sem se repetir, gera uma semente nova, sem perder a essência  

Então o devenir muda, mas conserva um princípio fundamental?  

Sim, o potencial se desponta. É início, meio e novamente início, meio… E o fim não existe? O devenir está sempre em início, meio…? Como olhar, então, o devenir?

Santiago Bovísio, fundador de Cafh em meados do século XIX, viu o devenir a partir da lei da Renúncia. No livro “O Devenir”, Bovísio em suas reflexões descreve mundos visíveis e invisíveis, onde o conhecido e o desconhecido se beijam e abrem espaço para se vislumbrar uma realidade potencial. O desafio é estudar, pesquisar, meditar, evidenciar. Uma explosão de acontecimentos invisíveis, uma expansão da consciência.

Santiago mostra o devenir e a Renúncia em ação, desde a origem da evolução, das explosões de vida e morte. Em mundos ainda nebulosos, como em sonhos, na dança da vida, pode-se vislumbrar o devenir. Na vida das pedras, das flores, nos elementais, nas entranhas da terra, em outras dimensões, o devenir se insinua, se faz intuição, conhecimento, desafios para o despertar de uma nova consciência. Nesta dança, a renúncia impulsiona o voo do espírito e anuncia o devenir como uma força que instiga o ser humano a se desenvolver espiritualmente, isto é, construir autoconhecimento, reconhecer a densa complexidade humana, o misterioso encontro com o divino.

O ser humano se transforma em um buscador que segundo José Luis Kutscherauer é “alguém muito ativo que não se conforma nem se rende enquanto não encontra o objeto de sua busca. Um buscador que está em busca de algo que vivamente quer encontrar. Sem deter a sua marcha, pergunta-se o que há por detrás do horizonte…” É um buscador de liberdade. O devenir o impulsiona… Renúncia e devenir em ação iluminam e transformam o buscador.

E como diz Ana Cristina Flor, o ser humano vai se devenindo. O buscador se encontra em processo de expansão da consciência. E a vida vai se devenindo. E o devenir também vai se devenindo. É a lei da renúncia em ação.

O devenir é, então, uma força que faz a vida ir do finito ao infinito, ao desconhecido. Como?  Nos gestos conscientes mais simples, como beber água e agradecer. É aí que o finito, a água, se encontra com o infinito, o rio, o mar, as milhares de vidas cujas mãos seguram o copo para que a boca viva o ato de beber água.

É a vida se devenindo sob a melodia da Renúncia. Tudo vai se devenindo. 

Já viram a água do rio evaporar ao amanhecer? Já observaram as nuvens movendo-se sob a ação do vento? Quando você pensa, sente, fala acontece devenir? Vejam que a gramática da criação, a palavra do tempo e do espaço em ação está em devenir, devenindo-se. A renúncia, como diz Ana Cristina Flor, é “o óleo que suaviza a mudança”, a transformação, o devenir.

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Por Rosalba Escudero
09/06/2026