O que me faz escolher uma obra ou peça musical em vez de outra? Qual é a razão para que eu sinta a necessidade anímica de ouvi-la uma e outra vez? Por que prevalece, em minha escolha, a necessidade sensível de escutá-la antes da análise racional?
Diante desta situação tão simples, estas e muitas outras são as perguntas que nos colocam diante de interrogações que não têm uma resposta definitiva. Podem-se tentar explicações e raciocínios muito variados, inteligentes e criativos, mas nunca definitivos.
O conhecimento humano requer metodologia científica, dados duros. Por isso, a construção de significado em qualquer área é fundamental para colocar o pé em terra firme.
No entanto, diante de questões onde é evidente que a verdade pode admitir mais de uma possibilidade, a arquitetura de conteúdos se vale de um elemento poderosíssimo que vincula o consciente, o inconsciente e o intuitivo.
Esse curinga ambivalente é o símbolo.
O simbólico se expressa em silêncio, menciona sem dizer, sugere sem pressionar, dissimula o que representa, mostra ocultando e vice-versa. O simbólico desafia os limites, é “border”. O simbólico transita pela fronteira do mágico. O simbólico é misterioso.
E é aqui onde, retomando as nossas interrogações, podemos ensaiar alguma hipótese possível.
Não será, por acaso, que uma obra de arte opera na alma humana como um símbolo? Como um portal para outra dimensão? Como um último véu que nos separa daquilo que nos atrai irracionalmente como promessa de gozo?
O concreto e real é que, diante da escuta, se desperte em nosso ser uma sensação de superação, uma percepção bem definida de elevação acima do nosso estado habitual de consciência.
Por que não supor que este nível de otimização anímica se sustenta diante da expectativa de um “algo” inescrutável que sempre está atrás da última nota, atrás do último acorde, som atrás de som até a cadência final?
Acaso se trata de um processo que podemos calcular, explicar ou medir?
Acontece que uma mesma obra executada por intérpretes diferentes gera em cada ser uma resposta sensitiva distinta. Pode emocionar ou não.
Também acontece que um mesmo intérprete execute a mesma obra em dois concertos diferentes e, em um comove o auditório, mas no outro, não.
Talvez pudéssemos começar a especular sobre a existência de um processo na sensibilidade de nossa alma que, dadas as suas encriptadas características, poderíamos definir como um mistério.
Essa coisa invisível que sacode nosso espírito, da qual temos a certeza visceral de sua existência, mas que nos resulta bastante difícil definir, apresenta-se como uma alquimia de coesão e harmonia que sustenta nosso vínculo mágico ao longo de toda a obra e se converte em um elemento imprescindível para que tenha vida.
Especulemos com uma hipótese possível.
Essa pedra filosofal é a mística.



