A ciência e a espiritualidade historicamente buscam a compreensão e a significação, seja na análise de uma célula, do cosmos ou da dimensão espiritual do ser humano.
Ambos compartilham um impulso essencial que Erich Fromm descreve como biofilia: um amor incondicional e uma fascinação pela vida. “A pessoa que ama plenamente a vida é atraída pelo processo e crescimento da vida em todas as suas dimensões. Prefere criar a conservar, descobrir o novo do que buscar a validação do antigo.”
Cada um tem sua própria forma de observar, descrever e compreender os mistérios que apresenta a realidade e o significado da existência.
A ciência emprega uma linguagem técnica e racional baseada em evidências; em contraste, a espiritualidade utiliza linguagem simbólica e experiencial. Se permanecerem isolados, usando apenas seu próprio vocabulário sem estabelecer comunicação entre eles, correm o risco de distorcer o que cada um considera “a verdade”. Juntos, representam formas complementares de sabedoria que nos convidam a compreender e valorizar a vida.
Apesar de períodos de tensão e rivalidade entre ambas, um diálogo transdisciplinar e institucional começou na segunda metade do século XX. Um exemplo notável é a fundação do Instituto sobre Religião numa Era da Ciência (IRAS) nos Estados Unidos em 1954.
Esse diálogo essencial conecta, tanto a comunidade científica como diversas tradições místicas e líderes espirituais. Várias universidades iniciaram um diálogo acadêmico entre ciência e espiritualidade. Organizações sem fins lucrativos como o Mind and Life Institute, sob a direção do Dalai Lama e Francisco Varela, fizeram contribuições importantes.
Espiritualidade e Ciência: A Origem Ancestral do Diálogo
Este intercambio não é algo recente; em tradições antigas, como o hinduísmo, foi essencial integrar a verdade objetiva com a sabedoria interior. Estima-se que, a partir de cerca de 1500 a.C., durante o período Védico, os Rishis (sábios videntes) desempenhavam essa função mediadora entre ciência e espiritualidade. Não foram eles que criaram os Vedas, mas quem os interpretou, atuando como pontes essenciais entre o mundo material e o conhecimento transcendente.
Espiritualidade: Uma Exploração Pessoal do Eu
A espiritualidade é caracterizada por se liberar de dogmas; é uma experiência intrínseca que motiva o indivíduo à autoexploração.
Por meio de hábitos diários personalizados, inicia um caminho muito mais amplo do que o meramente intelectual.
Examina como pensa, sente e age para fomentar uma conexão mais consciente com sua realidade pessoal, assim como com uma dimensão transcendental do ser, sem depender de intermediários.
Esta experiência se distingue porque carece de medo: não se fundamenta em temores ante fenômenos naturais nem requer recompensas ou castigos para alcançar valores éticos ou morais.
Conservando seus princípios fundamentais, mas sempre aberto à mudança, promove transformações internas como maior empatia e compaixão, clareza mental e um firme senso de propósito no presente.
Historicamente, tradições espirituais influenciaram profundamente as civilizações humanas.
Com o Renascimento surgiu a ciência moderna baseada em observações empíricas e inferências racionais. A ciência explorou terrenos antes reservados ao místico; demonstrou que algumas crenças carecem de lógica ou evidências enquanto confirma ou reinterpreta vários princípios espirituais, dando-lhes suporte observacional.
Correlação entre Ciência e Espiritualidade
As técnicas contemporâneas não buscam apenas entender os processos cerebrais, mas também abrir um canal comunicativo entre evidências empíricas e aspectos internos de nossa existência.
- Neurociência e Consciência: os estudos sobre meditação indicam como as práticas contemplativas alteram estruturas cerebrais (neuroplasticidade), gerando correlações neurais vinculadas a estados místicos. No entanto, embora tais mudanças estejam bem documentadas, as implicações para experiências místicas continuam sendo debatidas dentro do campo científico.
- Neurociência e Epigenética: revelam como pensamentos, emoções e estados mentais afetam tanto nossa saúde física quanto a expressão genética.
- Psicologia Transpessoal: analisa experiências subjetivas (como percepções unitárias com a natureza ou o absoluto), bem como profundas transformações internas, permitindo sua integração em contextos clínicos.
- Física quântica: desestruturou noções materialistas separadas sugerindo uma realidade profundamente interconectada.
- Ecologia: demonstrou nossa interdependência vital ao reforçar noções espirituais de unidade.
- Biologia Evolutiva: sustenta que cooperação e empatia favorecem a sobrevivência social; ensinamentos religiosos promovem esses conceitos por séculos com a compaixão e altruísmo.
- Física, Biologia e Cosmologia: confirmam que nada permanece estático: tudo muda ou evolui constantemente. Muitas tradições espirituais referem-se ao conceito de viver o desapego. Significa saber receber e aproveitar sem se apegar, e deixar ir sem sofrimento desnecessário.
Áreas de Incerteza
Em muitas práticas espirituais, sensações conectivas são experimentadas com algo superior, onde o sentido individual do “eu” desaparece. Uma técnica usada pela medicina para tratar transtornos emocionais é a hipnose de regressão; alguns pacientes relatam experiências relacionadas a vidas passadas ou futuras, bem como à sobrevivência pós-morte.
Experiências de quase-morte revelaram episódios conscientes mesmo quando apresentam ausência de atividade elétrica cerebral, além de sensações de paz ou encontros luminosos com entes queridos.
Algumas correntes propõem que existe um campo de energia informacional onde toda a história existencial é registrada, semelhante a um disco virtual acessível por meio de habilidades espirituais específicas.
A física quântica descreve fenômenos não locais e não determinísticos no nível da matéria (entrelaçamento quântico).
De forma análoga, essas experiências espirituais poderiam estar associadas a uma “consciência não local”, ou seja, a mente não seria limitada ao cérebro, mas poderia se estender além do espaço e do tempo.
Ainda não há evidências científicas firmes que demonstrem a existência de uma consciência fora do cérebro.
Falta evidências que mostrem que a vida é apresentada como um processo de adaptação da mente a formas cada vez mais complexas de conexão, que transcendam o conceito de realidade percebida.
Contribuições Científicas para as Práticas Espirituais
Um enfoque científico relevante a ser considerado nas práticas espirituais está em modular a disciplina pessoal por meio de técnicas eficazes, garantindo precisão contínua, evitando depender exclusivamente da sorte ou do entusiasmo momentâneo.
Aqueles genuinamente comprometidos em uma experiência espiritual precisam de uma mentoria para guiar o desenvolvimento pessoal através de um método de vida. Quando se incorpora o suporte de novos conhecimentos cientificos, o papel do apoio, acompanhamento e compreensão é potencializado em múltiplos níveis.
O trabalho colaborativo representa o motor fundamental da ciência sem subestimar gênios individuais. As instituições científicas são plataformas intelectuais cruciais que transformam ideias e descobertas válidas e impactantes de efeitos duradouros.
Da mesma forma, as ideias espirituais dadas por seus fundadores são realizadas pelos participantes em grupos. Suas próprias instituições internacionais as representam na sociedade moderna e evitam cair na subcultura da suspeita. Este passo foi fundamental para a extensão de suas ideias por meio da transparência de seus fundamentos, metodologias e uso de seus recursos, conquistando acesso à credibilidade social.
Explore mais conosco.
Bibliografia
- Fromm, Erich. O coração do homem. Fundo de Cultura Económica, 2000.
- Medicina bioeletromagnética e de energia sutil: a interface entre mente e matéria. Paul J Rosch. Ann N & Acad Sci. 2009 Ago: 1172:297-311 doi: 10.1111/j.1749-6632.2009.04535.x.
- Science 1 out 1954 Vol 120 Edição 3118 pp522–533
- Carl Gustav Jung et al., *Física Quântica e a Mente Espiritual*: Uma Visão Mística do Século XXI por Diogo Valadas Ponte & Lothar Schäfer Behav Sci 2013 Vol 3(4):601–618 https://doi.org/10.3390/bs3040601.
- Weiss B. Muitas vidas, muitos professores. Google Books.
- van Lommel, P et al., *Experiências de quase-morte em sobreviventes de parada cardíaca*: Um estudo prospectivo na Netherlands Lancet, 15 de dezembro de 2001, Vol 358(9298):2039–45 doi:10.1016/S0140-6736(01)07100-8



