Não nos aconteceu, por acaso, viver um momento em que tentamos transmitir serenidade e tranquilidade a uma pessoa que atravessa uma circunstância adversa de sua vida e a vemos desesperada, como se tudo ao nosso redor se detivesse, tal qual uma imagem congelada na televisão? Estamos apenas nós, nosso ou nossa interlocutora, e uma atmosfera cálida que nos envolve, alimentando a força que nossas palavras transmitem. Embora essa imagem seja quase literária, ela representa fielmente o significado desse ato, tanto para nós quanto para aquele a quem se dirige.
Há, naturalmente, o oposto. Quando a ira, alimentada por uma agressão verbal ou física, impulsiona as palavras que saem de nossa boca como dardos de fogo, é uma atmosfera escura e densa que envolve a cena.
A neurociência e as palavras
O impacto das palavras positivas no cérebro e nas emoções manifesta-se em diversos aspectos.
Estas palavras estimulam distintas zonas, umas delas é o lóbulo frontal, que repercute no planejamento e no controle cognitivo e ativa os centros de recompensa.

Elas provocam a liberação de neurotransmissores, como a dopamina, que melhora o estado de ânimo e a motivação, e reduzem a liberação de cortisol, o hormônio responsável pelo estresse.
Modificam a percepção da realidade, tornando a pessoa mais tolerante à frustração e mais focada, favorecendo sua saúde mental.
No campo da interação social, estabelecem uma conexão emocional, fortalecem a autoestima e estimulam a cooperação, atuando como uma ponte para o bem-estar nas relações.
Quando utilizadas de forma sistemática, favorecem a neuroplasticidade social, pois contribuem para a construção de uma realidade mais positiva e equilibrada, tanto para quem as pronuncia quanto para quem as escuta, reforçando circuitos neuronais de confiança e resiliência.

As palavras negativas, em troca ativam a amígdala – medo ou ansiedade – disparam o stress – cortisol – e podem dificultar a cognição e fomentar o pessimismo, reforçando a neuroplasticidade negativa.
Como o cérebro processa as palavras?

O cérebro processa as palavras de forma sensorial-motora, ou seja, envolve áreas relacionadas à percepção e à ação. Isso significa que, quando ouvimos ou lemos uma palavra, nosso cérebro ativa redes neurais associadas ao seu significado e às nossas experiências sensoriais e motoras relacionadas a essa palavra.
Há diversos estudos neurocientíficos que demonstram como o cérebro reage após segundos de dizer ou simplesmente pensar uma palavra. Apenas ao pronunciar uma palavra, é possível levar o cérebro a liberar estresse e ansiedade ou, ao contrário, felicidade e produtividade.
Um estudo recente realizado por neurocientistas da Universidade Estadual da Virgínia (Virginia Tech – VTC) e publicado na revista Cell Reports, liderado pelo neurocientista computacional Read Montague, professor do Instituto de Pesquisa Biomédica Fralin da VTC e diretor do Centro de Pesquisa em Neurociência Humana do instituto, representa uma exploração pioneira de como os neurotransmissores processam o conteúdo emocional da linguagem, uma função exclusivamente humana.
O estudo conecta o biológico ao simbólico e estabelece que:
“A crença comum sobre substâncias químicas cerebrais, como a dopamina e a serotonina, é que elas enviam sinais relacionados ao valor positivo ou negativo das experiências”, afirmou Montague, coautor principal do estudo. “Nossos achados sugerem que essas substâncias químicas são liberadas em áreas específicas do cérebro quando processamos o significado emocional das palavras. De forma mais ampla, nossa pesquisa sustenta a ideia de que os sistemas cerebrais que evoluíram para nos ajudar a reagir às coisas boas ou ruins do nosso ambiente também podem influenciar a maneira como processamos as palavras, que são igualmente importantes para a nossa sobrevivência.”
Outros estudos indicam que as palavras que mais impactam são as negativas. Qualquer palavra negativa faz com que a amígdala entre em estado de alerta e ative os mecanismos de estresse, levando o cérebro a fantasiar cenários catastróficos, gerando mais estresse, preocupação e ansiedade. Com o tempo, isso provoca mudanças funcionais no cérebro, que aprende a se proteger ao ouvir palavras negativas, como um “não”, enviando sinais a todo o organismo. Não é coincidência, portanto, que isso se manifeste em dores musculares e cansaço excessivo.
Um estudo realizado por neurocientistas japoneses revelou que o impacto das palavras negativas no cérebro é ainda maior quando se referem a características pessoais. Podemos deduzir que as palavras alteram nossa lógica, nossa capacidade de raciocínio e de processamento da informação. Além disso, as palavras negativas têm a capacidade de influenciar nosso ritmo de sono, o apetite, entre outros aspectos.
Diante desses conhecimentos, torna-se importante promover uma mudança consciente em nosso comportamento, deixando de nos desmerecer e de nos autodesqualificar, e começando a eliminar palavras negativas de nosso vocabulário. É necessário abandonar a autocrítica excessiva e a crítica aos outros, e iniciar a prática de afirmações positivas desde o momento em que nos levantamos até a hora de nos deitarmos.
Viver conscientemente
Viver conscientemente é estar presente e atento aos pensamentos, emoções e ações, atuando com intenção e não de forma reativa ou automática conforme o estado de ânimo. Isso implica observação sem julgamento, conexão com o momento presente por meio da respiração e dos sentidos, e alinhamento com os próprios valores. Esse modo de viver traz calma, melhora as decisões e reduz o estresse, por meio de práticas como a meditação e a atenção plena nas atividades diárias.
Estar consciente implica permanecer no presente, reconhecer pensamentos e emoções sem julgá-los, escolher como responder em vez de reagir automaticamente, conhecer os próprios padrões, motivações e valores, e sentir mais profundamente o corpo, a natureza e as relações.
Para isso, é necessário um Método de tomada de consciência, baseado na meditação, em uma alimentação consciente, na atenção às atividades habituais, na gratidão pelas pequenas ações diárias e na busca de momentos de silêncio e espaço para a conexão consigo mesmo.
Isso permite que, ao agir e nos expressar por meio das palavras, reconheçamos a importância de utilizar palavras positivas e estimulantes, deixando de lado as negativas. Conforme já exposto sobre o efeito das palavras no cérebro, isso conduz à redução do estresse e da ansiedade, à melhoria da concentração e da tomada de decisões, ao fortalecimento de relações mais saudáveis, ao aumento da autoestima e do sentido de propósito, transformando a experiência de vida em algo mais rico e menos mecânico.
O que nos diz a experiência da nossa vida
Nem tudo é branco ou preto. O estado de ânimo, a saúde, o humor e o estado de consciência determinam como reagimos diariamente às circunstâncias que requerem nossa atenção e como nossa mente e nosso coração alimentam as palavras que pronunciamos, consciente ou inconscientemente. Somente a disciplina de um Método de vida, praticado ao longo de toda a existência, pode ser determinante em nosso comportamento e em nossas palavras.
Isso implica conhecer a si mesmo, expressão recorrente e frequentemente utilizada para indicar a necessidade de consciência de si, mas que não é um fato automático nem de fácil realização sem um trabalho perseverante e contínuo sobre si mesmo.Um exercício simples é o exame retrospectivo, realizado antes de dormir, visualizando o que ocorreu durante o dia, desde o momento em que acordamos até o momento de nos deitarmos, como um filme que passa por nossa mente, sem julgamento.

A meditação é uma ferramenta poderosa que utiliza a neuroplasticidade para remodelar o cérebro, permitindo que você crie novos hábitos e comportamentos mais adaptativos, passando de reações automáticas para respostas conscientes e calmas.
Com o tempo, esse exercício pode se estender para mais de um dia, uma semana, um mês, ou até vários meses e um ano. Trata-se de uma pausa consciente para avaliar imparcialmente os acontecimentos, revelando padrões de comportamento e fornecendo informações sobre o que deve ser modificado para que possamos agir conscientemente e ajustar o rumo.


