E depois de eu me acostumar, você escolheu partir.
Foram 19 anos e muitos meses acompanhando tantos. Você nasceu de uma de nossas cachorrinhas e nós o presenteamos a um ser muito especial; depois, no seio dessa família, você escolheu estar com outro e ser seu companheiro. Anos depois, você voltou para nós quando ele precisou emigrar. O círculo se fechou com o seu retorno, inclusive viajando de um país a outro, para continuar ao nosso lado.
Sempre dizemos que os cães nos assistem e nós cuidamos deles. Eles são alegria, calor, um sorriso quando estamos mal. Uma possibilidade de transformar a tristeza e a dor.
A poucos dias da sua partida, meu querido pequeno, ainda sinto surgir a minha tristeza, egoísta, mas não menos dolorosa.
As lágrimas correm ao lembrar de você e ao pensar que já não está mais aqui e, ao mesmo tempo, vejo seus últimos dias, horas e minutos, e sei que você ficou para que, ainda assim, me acompanhasse.
Quanto compreendi depois da sua partida.
A resposta à nossa busca está em cada relação.
O ser humano vive buscando a verdade, buscando ser, buscando a liberdade e esse sonho da união essencial com o Divino.
E acontece que tudo o que buscamos está presente em cada relação que temos.
E ouso dizer que com você pude conectar muitas coisas no momento da sua partida física.
Foi uma compreensão quase mágica em meio à dor; vivi lembranças que me fizeram perceber que tudo o que eu precisava em cada momento se manifestava, mesmo quando eu não compreendia.
Vi sua vida em retrospectiva e vi a união com tantos seres com quem você esteve, e com cada um deixou uma vivência de amor.
Comigo, você foi a cura para um tempo de angústia e incerteza; foi um companheiro para me sustentar e cuidar de mim.
Quando as noites se tornavam difíceis por medos e pânico, você estava ali, quase sem me tocar; apenas quando minha angústia era mais evidente eu o percebia, e para mim você era refúgio, era quem transmutava aquele momento em segurança e calma para a minha mente. Você era o guardião dos meus sonhos.
Amor incondicional
Sempre fui grata, mas hoje, olhando para trás, percebo a dimensão do seu amor.
Os humanos têm a dádiva de se conectar com tantos, e eu tive essa dádiva com você.
Como muitos outros também tiveram.
É impactante perceber quantas coisas hoje se tornaram um ensinamento de amor.
Estar, sem esperar; acompanhar, mesmo sem que lhe digam ou valorizem, porque nos conectamos a partir de outra vibração.
Posso acreditar que você esperava carinho, mas na verdade era o contrário: você o oferecia sem que eu valorizasse. Isso não importa, porque, mesmo sem eu saber ou perceber, eu sentia. Era na vibração do amor, não da compreensão.
O amor é percebido pela sensação física, mas você fez com que esse amor me acompanhasse não por um gesto, mas por um estar atento, sem pressa, sem resposta, apenas ajudando-me a mudar minha vibração pelo simples estar.
Há relações especiais
As relações com nossos animais não são algo secundário em nossas vidas; são mais uma forma de relação e de compreensão.
Assim como tudo o que nos cerca.
Em seus últimos tempos, começamos a cuidar mais de você e a estar mais atentos às suas necessidades. E mesmo com todas as suas limitações, você se aproximava e me procurava. Eu acreditei — e ainda acredito — que era para se sentir perto de mim; talvez esse seja meu engano e hoje percebo que era para que eu o sentisse e, assim, hoje não sofresse tanto.
Perguntei-me muitas vezes o que o fazia viver com tantas limitações, sem ouvir, sem enxergar e quase curvado.
Acredito que vê-lo assim todos os dias era um ensinamento. Aprendi a me comunicar aproximando-me para tocá-lo sem assustá-lo; aprendi a estar atenta às suas necessidades.
Comecei a colocar-lhe fraldas porque, instintivamente, você já perdia a memória e eu, a paciência, mas buscava compreender.
Reclamei muitas vezes, e limpar ou me curvar cada vez mais para levá-lo de um lugar a outro tornou-se um processo difícil e cansativo. Levantar de madrugada para que você saísse, mesmo usando fralda. Muitas vezes me custou, eu ficava mal-humorada. Como é difícil não compreender.
E quase sem perceber fui entendendo que você continuava a me ensinar a amar.
Cuidar, assistir, acompanhar é o que nos falta como seres que vivem em relação. Desenvolver empatia e compreensão não é algo natural ao ser humano; isso é uma virtude dos cães e dos animais. As pessoas vivem sua realidade a partir do próprio eu e do que têm; aprendem a se doar em momentos ou com pessoas muito específicas.
Despertar a empatia é algo que precisa ser transcendido: sair do eu e enxergar o outro. E a compreensão passa pelo filtro da razão, e esse não é o caminho; nem tudo precisa ser explicado ou racionalizado. Nossos animais simplesmente dão e estão.
Hoje, a poucos dias da sua partida, estou aprendendo e compreendendo muitas coisas inimagináveis.
A mais forte é que eu acreditava que, nos últimos dias, quando você já não comia nem bebia água, nós o acompanhávamos, e hoje percebo que era você quem nos preparava para a sua partida.
Você nos dava tempo para nos despedirmos.
Os caminhos fáceis não são os melhores; neles não há profundidade nem valor.
Eu poderia ter escolhido que você fosse sedado, mas algo me fez sentir que não era necessário; era melhor viver essa experiência lenta e dolorosa para continuar acompanhando e aprendendo.
Acompanhá-lo fez-me refletir sobre os seres com quem compartilho a vida.
Precisamos aprender com essa relação para agir da mesma forma.
Viver o presente.
Acredito que valorizar cada instante com tudo o que nos cerca é uma das maiores atenções que devemos cultivar.
Com você aprendi a perceber — pois ainda preciso aprender a aplicar — que estar é isso: viver o momento, compartilhar, estar, e nada mais.
A qualidade dos momentos é como o espetáculo de um amanhecer ou de um pôr do sol.
Um quadro perfeito e uma sensação de prazer indescritível, um arrebatamento: apenas sentir e estar.
Obrigada por tudo o que vivemos.
E sigo compreendendo.
Meu pequeno mestre da vida. 🐾🤍



